Os dilemas de Rivaldo - o melhor jogador do mundo
(leia também www.globo.com.br/esportes/index_versao40.htm)
rivaldo1.jpg (29886 Byte) O lance acrobático contra a Argentina, em julho de 1999, numa atuação antológica na Copa América

Todas as noites a propaganda de um achocolatado invade os lares espanhóis no horário nobre com uma pergunta: "Existe alguém melhor que Rivaldo?"A indagação é precedida de imagens de lances do craque do Barcelona e da Seleção Brasileira. A resposta não demora. "Sim", diz Rivaldo Júnior, de 4 anos, primogênito do jogador. O moleque surge na tela com dribles e gols espetaculares, auxiliado por um computador que simula as jogadas do mestre de carne e osso. As feições do garoto informam que o menino é o pai do homem. Rivaldo e Rivaldinho parecem ser uma única pessoa.

Desde a última segunda-feira, Rivaldinho perdeu o direito de dizer que supera o pai com a bola nos pés. O pernambucano Rivaldo Vitor Borba Ferreira tornou-se, aos 27 anos, o melhor jogador de futebol do mundo, título conferido pela Fifa. Dos 140 treinadores que participaram da escolha, o brasileiro recebeu 91 votos. O inglês Beckham, do Manchester United, teve 18 votos. O argentino Batistuta, da Fiorentina, ficou com apenas 5. "É o reconhecimento pelo que tenho mostrado na Espanha e na Seleção", festeja Rivaldo.

A trajetória profissional do dono da bola de 1999
  • Vida
    Nasceu em 19 de abril de 1972, em Paulista, na região metropolitana do Recife
  • Clubes
    Atuou no Santa Cruz (1991-92), no Mogi Mirim (1992-93), no Corinthians (1993-94), no Palmeiras (1994-96), no La Coruña (1996-97) e no Barcelona (desde 1997)
  • Seleção
    Estréia em 1993. 41 gols em 19 jogos. Campeão da Copa América (1999)
  • Títulos
    Campeonato Espanhol pelo Barcelona (1998 e 1999), Copa da Espanha (1998) e Campeonato Brasileiro pelo Palmeiras (1994)


Ele está longe da unanimidade dos votos recebidos na eleição da Fifa. O treinador do Barcelona, o holandês Louis van Gaal, pôs o brasileiro na arquibancada em três jogos sucessivos. Tirou-o até do banco de reservas. Rivaldo foi afastado do time como punição por ter tornado público o descontentamento de jogar na ponta-esquerda. "Sei que posso render melhor comandando o meio-de-campo", insiste o brasileiro. Falcão, um dos grandes meios-de-campo da história do futebol brasileiro, hoje comentarista, diz que Rivaldo deveria ser um atacante que recua, e não um armador que ataca, como ele costuma atuar na Seleção. O francês Michel Platini critica seu excesso de individualismo. "Ele não joga para a equipe", diz. Tostão, o antológico centroavante da Copa de 70, considera Rivaldo um grande jogador, um armador-artilheiro, o arco e a flecha, mas faz restrições a seu desempenho. "Ele não sabe tocar a bola de primeira e não consegue jogar sem olhar para a bola, como faziam os grandes craques da história do futebol", escreveu Tostão. "Ele é um excepcional jogador, mas não é um gênio do futebol."

Canhoto como Rivelino e Maradona, Rivaldo dificulta o trabalho dos marcadores e abandona a humildade quando trata de definir seu estilo. "Sou mais habilidoso que um jogador destro", diz. "Meu controle de bola é coisa de menino." E uma vez mais se dá o encontro, como na publicidade do achocolatado, da infância pobre, de peladas no chão, com o êxito da idade adulta. Aos 13 anos calçou a primeira chuteira, um presente do pai, Romildo, que não viu o sucesso do filho. Ele morreu atropelado por um ônibus em 1989, enquanto Rivaldo jogava descalço com os amigos. Nas ruas de terra que cruzam a parte mais alta da Ladeira do Frio, periferia do município de Paulista, região metropolitana do Recife, o franzino e encabulado menino Valdo tinha três diversões: pegar passarinho para trocar com os colegas, treinar galos de briga e jogar futebol.

A fama não mudou o jeito discreto e tímido do atleta, avesso a noitadas, forrós e pagodes. No lazer, prefere a praia, ao lado da família. "Enquanto Ronaldinho esbanja riqueza e mostra os carros e as namoradas na televisão, Rivaldo permanece na dele", compara Ricardo Vitor, de 32 anos, irmão mais velho do jogador. Rivaldo tem uma Ferrari Testarossa, igual à que Ronaldinho exibiu pelas ruas do Rio de Janeiro no ano passado. O carro de US$ 500 mil foi comprado com a assessoria do campeão mundial de Fórmula 1, o alemão Michael Schumacher, que deu dicas de modelo para um indeciso Rivaldo. O jornal italiano Gazetta Dello Sport divulgou uma notícia segundo a qual o brasileiro seria um recordista em multas. O jogador nega e informa que tal fama surgiu de um episódio há quatro meses, quando foi parado por um guarda rodoviário e levou uma advertência do policial. "Não fui sequer multado", garante. Rivaldo diz que a fama de barbeiro é injusta, apesar de ter tirado a carteira de habilitação tarde, aos 22 anos, quando comprou o primeiro carro - um Escort XR-3. "O carro ficava na garagem", recorda-se. "Eu só fazia limpar, não sabia dirigir."

A bordo da Ferrari, o novo-rico do futebol vive como astro milionário, mas prefere não ostentar. Rivaldo mora com a mulher, Rose, ex-caixa de supermercado de Mogi-Mirim, os dois filhos - Rivaldinho, de 4 anos, e Tamires, de 2 - e um sobrinho, Paulo Henrique, de 7 anos, numa casa confortável, no bairro Saint Juste de Verne. A residência foi alugada depois da intempestiva mudança para a capital da Catalunha. Em La Coruña, sua primeira estada na Espanha, comprou uma mansão. Passou apenas dois anos defendendo o Deportivo. A saída para o Barça não foi perdoada. "Já voltei três vezes a La Coruña e sofri três derrotas", diz o jogador, que passa os 90 minutos em campo sob vaia dos fanáticos torcedores do time local.

Os campeões da fifa nos anos 90

1991 Matthäus Alemanha
1992 Van Basten Holanda
1993 Baggio Itália
1994 Romário Brasil
1995 Weah Libéria
1996 Ronaldo Brasil
1997 Ronaldo Brasil
1998 Zidane França

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